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quarta-feira, 6 de março de 2019

Dom Armando Bucciol retoma o sentido da Quarta-feira de Cinzas para o cristianismo

O sentido da Quarta-feira de Cinzas

mistĂ©rio pascal de Cristo, isto Ă©, o evento de sua paixĂ£o, morte e ressurreiĂ§Ă£o, Ă© fundamento e cume da fĂ© que professamos. Nesse acontecimento, encontra-se, tambĂ©m, a identidade e a razĂ£o do culto que elevamos ao Senhor. Por isso, a Igreja celebra o evento pascal com grande solenidade.
Ponto de partida daquele que chamamos de Ano litĂºrgico Ă© o Domingo, o Dia do Senhor, do qual testemunham vĂ¡rias passagens do Novo Testamento, sobretudo as que falam das aparições do Ressuscitado no primeiro dia da semana (cf. JoĂ£o 20, 1.19,26 etc.). Enriquecido ao longo dos sĂ©culos, este dia serĂ¡ importante nĂ£o sĂ³ pela Igreja, mas tambĂ©m pela vida social. Pelo meado do II sĂ©culo, os cristĂ£os escolhem um domingo – a data Ă© motivo de animada discussĂ£o – para celebrar a solenidade da PĂ¡scoa. Desde o sĂ©culo IV, jĂ¡ existe um tempo de preparaĂ§Ă£o, ao qual Ă© dado o nome de Quaresma, para indicar sua duraĂ§Ă£o de quarenta dias. Este nĂºmero tem muitas recordações bĂ­blicas, desde a caminhada do povo de Deus, rumo Ă  terra prometida, atĂ© o jejum de Jesus, no deserto. No tempo do papa LeĂ£o Magno (+ 461), em Roma, a Quaresma começava no sexto domingo antes da PĂ¡scoa e, na conta, compreendiam-se os domingos, dias, porĂ©m, em que nĂ£o se jejuava. No sĂ©culo seguinte, para manter o jejum de quarenta dias, antecipou-se o inĂ­cio da Quaresma na quarta-feira anterior. Eis a origem da Quarta-feira de cinzas que marca o inĂ­cio do tempo de preparaĂ§Ă£o e intensa espiritualidade, para dar sentido nĂ£o somente Ă  celebraĂ§Ă£o da festa, mas para tornar mais coerente com a vida, a celebraĂ§Ă£o da PĂ¡scoa.
O sentido deste dia pode ser encontrado nos textos bĂ­blicos e nas orações da liturgia do dia. Na tradiĂ§Ă£o cultural dos povos antigos, tambĂ©m do povo hebraico, colocar cinzas na cabeça, Ă© gesto de penitĂªncia (cf. JĂ³ 2,12; 2Sm 13,19; Lm 3,16), como destacam as palavras que introduzem o rito de bĂªnĂ§Ă£o das cinzas: “Roguemos instantemente a Deus Pai que abençoe com a riqueza de suas graças estas cinzas, que vamos colocar sobre as nossas cabeças em sinal de penitĂªncia”. Na oraĂ§Ă£o de Coleta, pede-se que “a penitĂªncia nos fortaleça no combate contra o espĂ­rito do mal” e a oraĂ§Ă£o sobre as cinzas que “os fiĂ©is que vĂ£o receber estas cinzas… possam celebrar de coraĂ§Ă£o purificado o mistĂ©rio pascal do vosso Filho”. Numa segunda oraĂ§Ă£o, reza-se: “Reconhecendo que somos pĂ³ e que ao pĂ³ voltaremos, consigamos… obter o perdĂ£o dos pecados e viver uma vida nova Ă  semelhança do Cristo ressuscitado”.
Caracterizam esta celebraĂ§Ă£o as palavras: penitĂªncia, perdĂ£o dos pecados, conversĂ£o, coraĂ§Ă£o purificado, domĂ­nio dos nossos maus desejos, vida nova, celebrar com fervor a paixĂ£o do Filho, mistĂ©rio pascal. O exemplo que Jesus nos deixou e seus ensinamentos, tornam-se referencial para os seus seguidores. O tempo de Quaresma, experiĂªncia da divina misericĂ³rdia e do perdĂ£o do Senhor, aponta para uma vida marcada pelas obras que mostram o batizado qual testemunha de um novo projeto de vida.
O Evangelho do dia (Mateus 6) recorda as trĂªs ‘obras’ que distinguem um fiel hebreu: a esmola, a oraĂ§Ă£o e o jejum. Uma insistente recomendaĂ§Ă£o – sempre atual – por parte de Jesus: “NĂ£o façam isso sĂ³ para serem vistos”; neste caso, vocĂªs perderiam “sua recompensa”. Tem um jeito prĂ³prio dos discĂ­pulos de Jesus: agir sem exibicionismo ou vanglĂ³ria, ligados sĂ³ no olhar amoroso do Pai.
Iluminados pela Palavra e a Liturgia, possamos iniciar e viver este ‘tempo favorĂ¡vel’ como precioso dom do Senhor para uma vida renovada e coerente. Por isso, cada um entre em si mesmo, e na sinceridade do seu coraĂ§Ă£o, “converta-se, e acredite no Evangelho”, como pede o ministro enquanto coloca as cinzas em nossas cabeças.