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domingo, 18 de abril de 2021

Entidades e estudantes lamentam morte de Gilmar de Carvalho



Entidades, amigos e estudantes de Gilmar de Carvalho (foto) lamentam sua morte aos 71 anos neste domingo (18) de covid-19:

Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce) - Com profunda tristeza, o Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce) comunica o falecimento do jornalista, professor e pesquisador Gilmar de Carvalho, 71 anos, ocorrido, em decorrência de complicações da Covid-19. Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho era filiado ao Sindjorce desde 1981. Referência nos estudos sobre a cultura cearense, Gilmar influenciou gerações de alunos da Universidade Federal do Ceará (UFC). Seu humor crítico e seu amor pela sabedoria popular são marcas de quem eternizou a relação do cearense com a chuva, na expressão "céu bonito pra chover". Além da eterna saudade, ficam a obra e os ensinamentos do mestre, que vivenciou os encantamentos das gentes do sertão. Gilmar também encantou-se. A diretoria do Sindjorce solidariza-se com familiares, amigos e alunos de Gilmar de Carvalho, rendendo-lhe eterna gratidão. Gilmar de Carvalho, presente! Hoje e sempre, presente! 

Associação Cearense de Imprensa (ACI) - A Associação Cearense de Imprensa (ACI) expressa seu profundo pesar pela perda de Gilmar de Carvalho, que foi sócio da entidade por mais de duas décadas, ocorrida neste domingo (18/04), em decorrência da Covid-19. Sua dedicação à pesquisa da cultura popular, com vasta produção bibliográfica, e a atuação como professor de gerações de jornalistas são imensas. O legado de Gilmar de Carvalho permanece entre nós. Que Deus conforte amigos e familiares.

Secretaria de Cultura de Fortaleza -  É com profunda tristeza que a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor) comunica o falecimento de Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho, neste domingo (18). Autor de mais de 50 livros, Gilmar de Carvalho era escritor, pesquisador da cultura cearense, jornalista e professor, tendo lecionado ao longo de três décadas no curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará, acompanhando e formando gerações de jornalistas e publicitários. Gilmar de Carvalho nasceu em Sobral, em 1949, mas veio para Fortaleza logo cedo, quando tinha apenas um ano de idade. Amante dos livros, encontrou, ainda na infância, o mundo da religiosidade e das tradições populares. Foi curador de diversas exposições e autor de livros com temáticas relacionadas à cultura popular tradicional, como literatura de cordel, xilogravura, poesia popular, rabequeiros, mestres da cultura, entre outras. A sua grande imersão no sertão começou depois da morte de Patativa do Assaré, em 2002. Possui dez títulos publicados sobre a vida e a obra do poeta popular e mais de 50 horas de entrevistas. Estudou ainda Padre Cícero no cordel e na xilogravura. Gilmar de Carvalho era bacharel em Direito (1971) e em Comunicação Social (1972) pela Universidade Federal do Ceará. Mestre em Comunicação Social, pela Universidade Metodista de São Paulo (1991). Doutor em Comunicação e Semiótica, pela Pontifícia Universidade Católica de  São Paulo (1998). Sua tese, intitulada "Madeira Matriz - Cultura e Memória" recebeu o Prêmio Sílvio Romero, da Funarte, em 1999. Também ganhou o Prêmio Érico Vanucci Mendes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Gilmar deixa um grande legado para a Cultura e para a Comunicação do Ceará e do Brasil, sendo eternizado pelas próximas gerações. A Secultfor deseja os mais sinceros sentimentos aos amigos e familiares

Professor e jornalista Eduardo Freire- O humor refinado sempre foi uma marca do Gilmar. Um amigo da Imprensa Universitária da UFC (onde trabalhei um tempo) me contou que certa vez estava com Gilmar e outros na gráfica e no meio da conversa alguém perguntou: 

- Gilmar, e essa história de que você é gay?

- É porque eu fui criado pelo meu avô... que era manicure...

Publicitário Eduardo Odécio Almeida - Professor Gilmar de Carvalho. Um grande amigo que parte. Trabalhamos juntos muito tempo em agências de publicidade e em projetos culturais. Um intelectual, pesquisador e grande defensor das tradições culturais do Ceará. Irônico, inteligente, delicado, um amigo ímpar. Uma perda irreparável.

Jornalista Angélica de Moura - Devo ter inúmeras fotos do professor Gilmar de Carvalho lá em casa, em Fortaleza. Guardo com carinho todas as observações que fez como meu orientador na  tese de final de curso de jornalismo. Para mim é como guardar original de poesia feita à mão por Drummond. Cada um deve reconhecer o tesouro que tem e este eu tenho bem guardado na minha memória.  Num dia como hoje, dia da partida de Gilmar, prefiro pedir emprestado a imagem do quadro que o pintor Fernando França fez pra ele. Retrata bem o magnetismo que ele exercia. Tinha olhos falantes. Com eles,  Gilmar de Carvalho dizia ou omitia quase tudo. A aparente timidez era a fiel guardiã de um mundo interior pulsante, renovador, questionador que nem todos erámos capazes de decifrar. Coisa de gênio. Esta imensa complexidade intelectual só ficava pequena diante da generosidade dele. Era professor, orientador, amigo, psicólogo, conselheiro,  confidente...uma lista interminável de detalhes que cabiam numa alma infinita. Era comunicador autêntico para  todos aqueles que estavam dispostos a se superar; mexia com o interlocutor, transformava, aprimorava, ensinava. De todos os presentes que ele me proporcionou fico com as nossas gargalhadas juntos. Era puro deleite ver como o sorriso dele  se liberava do resto do corpo e expandia felicidade. Não existe um ângulo melhor para reconhecer a nobreza humana. Descanse em paz, Gilmar de Carvalho".

Professor Paulo Elpídio Menezes - A PARTIDA IMPRESSENTIDA DO COLETOR DE ACHADOS E PERDIDOS. GILMAR DE CARVALHO PARTE COM A MESMA  DISCRIÇÃO QUE CULTIVOU A VIDA INTEIRA. Esta foi uma perda considerável. Não cabe em um simples registro de ocasião. Foge ao obituário formal, aos elogios de circunstância. É literalmente uma perda para a Cultura cearense. Foi-se, de leve, ao sopro perverso de uma partida pressentida, o maior e mais talentoso aprovisionador do acervo da nossa memória cultural. Trabalhador intelectual incansável, esquadrinhou os guardados e perdidos da nossa herança dispersa, na música, na poesia dos estros do povo, entre os mestres dos instrumentos de corda, nas aventuras criativas do romance. Um almoxarife incomum, recolhedor de coisas esquecidas, ia pelo impulso de pesquisador no encalço da criação e dos criadores, escondidos pela origem simples das suas vidas. Como caçador de uma arca perdida, valia-se dos poucos vagares para reunir destroços rejeitados e dar-lhes conteúdo e nexo, estudá-los e explicar como passaram a existir. E o fazia como missionário dominado pela sua fé e pela grandeza do desafio sempre renovado. Dos arquivos, das entrevistas por lugares insuspeitados, sertão afora, na interlocução  de artistas que ignoravam o próprio talento e a força da sua inspiração, Gilmar extraía do irrelevante aparente as provas do gênio criativo do homem do sertão. Foi assim que descobriu a palavra, o som e a imagem desses feitores da inspiração.  Ajudavam-no nesta tarefa franciscana, os miúdos de prêmio conquistados, o mecenato do Estado, nem sempre fácil de extorquir para as boas ações inteligentes, e os amigos, mecenas independentes, dolidários e cúmplices. Vagava pelas redações dos jornais, pelos seus recantos de Cultura cada vez mais desertos, em busca de uma voz amiga e da divulgação de uma obra civilizatória pouco reconhecida. Para si, bastavam-lhe os miúdos de professor universitário e a tranquilidade da Maraponga, onde ergueu a sua morada na companhia de uma velha e querida senhora. Coragem não lhe faltou, nem tempo. Encontrei-o muitas vezes dando trato aos seus escritos, com a cumplicidade de Mauro Gurgel e dos seus programadores gráficos. Bolia-se entre eles, como um auxiliar de tipografia, daqueles tempos heróicos que lembravam as aventuras de Gutenberg com seus tipos e a prensa, em Linz. Teria merecido, como poucos, as distinções  dos sodalícios, tão pródigos na celebração das glórias conferidas e tão parcimoniosos no reconhecimento dos talentos invisíveis. A obra de Gilmar de Carvalho foi construída por mãos inspiradas e trabalhadoras. É legado consistente, à espera de quem se disponha mergulhar no caprichoso tecido de um pesquisador cultural só comparável, nos termos que os associa, a Leonardo Mota, Ariano Suassuna e a Câmara Cascudo. Ficam conosco aqueles traços inconfundíveis que identificavam Gilmar; o porte distinto, uma sacola sempre cheia das surpresas gratas que fazia aos amigos. A simplicidade de quem cuidava por desculpar-se por deslizes que não cometera. Atento, afinal aos que ouvem não falta o dom da sabedoria, tinha a palavra e a oitiva precisa sobre as coisas, as palavras e as intenções. Da última vez que nos encontramos, na velha Livraria Cultura da dom Luiz, abriu a sacola, com ares de mistério, trouxe dos muitos guardados de lá, um embrulho de presente, mal dobrado, volumoso. Abri-o com um palpite a acudir-me de pronto. Lá estava, uma edição espanhola, encadernada, do Quijote, objeto recorrente de muitas das nossas conversas perdidas. Por gentileza sua, tenho toda a sua imensa obra publicada. Um tesouro.

Jornalista Jocélio Leal - Gilmar vive! Viva Gilmar