Desde criança, Espedito Velozo de Carvalho acorda
antes de o sol raiar. Aprendeu com o pai e o avô, vaqueiros e seleiros desses
que despertavam às 3h da madrugada, colocavam o café no fogo e serviam à
família antes de iniciar o trabalho na fazenda. Após tanger o gado, cuidavam em
fazer peças de couro, atividade que o artesão começou cedo a reproduzir.
O
primogênito de Raimundo Pinto de Carvalho e Maria Pastora Veloso "nasceu
com uma estrela" e dela nunca se desgarrou. Prova
disso é o título de mestre com o qual é reverenciado dentro e fora do Brasil,
em virtude da habilidade artesanal desenvolvida nestas quase oito décadas de
vida.
Natural de Arneiroz, no sertão dos Inhamuns, ainda
criança mudou-se para Nova Russas, onde ficou até os 10 anos de
idade. De lá, a família já crescida seguiu para Nova Olinda, no Cariri cearense.
Até que no ano de 1958, em meio a uma seca que assolou o sertão, o filho mais
velho, Espedito, foi tentar a vida nos cafezais paulistas.
Trabalhou
por dois anos "nas terras do sul" e
quando voltou para Nova Olinda, abriu uma bodega onde vendia "tudo em
secos e molhados" e também a primeira sapataria, a fim de dar continuidade
ao ofício ensinado pelo pai.
"Só
que eu era novo demais e pensava que o mundo todinho era meu, aí comecei a
brincar muito, farreei que nem um jegue e findei quebrado. Acabou o dinheiro, e
a caderneta ficou cheia de conta pra receber. Se eu ia atrás de cobrar, o cara
queria pagar era com briga. Aí não dava certo. Vim aqui pra dentro da rua, sem
nada. Só com uma mulher buchuda", relata, referindo-se ao local que hoje é
ocupado pela casa, loja, oficina e ainda pelo Museu do Ciclo do Couro,
espaços construídos com o suor e a história da família.
