Pacientes que enfrentam a diabetes no dia a dia e utilizam
insulina analógica ultra-rápida, de ação mais eficaz, denunciam a falta
dos insumos no postos de saúde do Estado há, pelo menos,
seis meses. Deixar de receber a medicação pode ocasionar prejuízos renais, de
circulação e afetar até a visão, como explicam especialistas. Além disso, os custos
com os produtos não são acessíveis para grande parte dos
usuários.
A
assessoria de imprensa da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) reconheceu que
houve problema na entrega, mas informa que a medicação começou a faltar apenas
em agosto. Em nota, a pasta disse que o processo para compra da insulina
analógica ultra-rápida teve abertura em 12 de setembro e foi homologado em 31
de outubro. A compra foi liberada no dia 6 de novembro e o fornecedor deve
entregar em até 15 dias úteis. Entretanto, quando questionada, a Sesa não soube
informar se o medicamento já pode ser recebido nos postos.
A administradora Raphaela Fernandes, 36, diz que vai constantemente aos postos
de saúde próximos da sua casa para buscar a medicação para a filha de 12 anos,
que tem diabetes tipo 1. No entanto, não encontra a medicação. “Desde o
finalzinho de março, a gente foi (no posto) e não tinha. Como é uma questão de
sobrevida, a gente acabou comprando”, relata a mãe.
Com
o período de provas, Raphaela percebe que sua filha fica nervosa e isso faz a
sua taxa de glicose oscilar mais do que o normal, o que exige maior controle
com a medicação. “Eu gasto em torno de R$ 300 (por mês) só
de insulina, fitinhas, pra higiene do local e pra fazer limpeza”, destaca.
Quem
também sente a falta deste tipo de insulina é a dona de casa Carla Ferreira,
26, moradora de Pentecoste, na Região do Maciço de Baturité. Ela cuida da filha
de 5 anos que, desde um ano e cinco meses, faz tratamento contra a diabetes do
tipo 1. “No posto da cidade, todo mês eu vou, mas nunca tem. No momento, eu tô
vivendo de doação”, conta. Ela disse que a medicação fica por
volta de R$ 150, e que, há cerca de seis meses, não encontra os
produtos no sistema público. “O que eles falam é que vai chegar, mas quando
chega não é o que ela usa. Aí nós estamos na Justiça também pra ver se ela
ganha tudo direitinho”, explica.
Mary
Sá César, professora e mãe do paciente Vitor César, de 13 anos, disse que não
recebe os equipamentos para utilizar na insulina analógica ultra-rápida do
filho desde abril deste ano. "Tenho ação judicial para receber a bomba [de
insulina] e os equipamentos, como a cânula e os sensores", diz. Segundo
ela, Vítor precisa de 12 caixas por ano do último item mencionado, mas só
recebeu quatro da Sesa em 2019. “Desde abril não recebo os sensores e não tenho
condições de comprar por causa do alto custo, então o jeito é depender de
doação do item já usado, arriscando a vida do meu filho”, acrescenta a professora.
Sem
o sensor, a bomba não evita as hipoglicemias, nem mostra a glicemia correta do
paciente. Conforme a professora, quando Vítor está sem o item, precisa fazer
vários exames por dia. “Meu filho chegou a ferir os dedos por causa da alergia
à agulha dos exames. Ele já perdeu as digitais de tanto que foi furado. É muito
complicado”, conta. De acordo com Mary, a situação de falta dos itens tem se
repetido desde o ano da ação judicial, 2017. “Sejam os sensores, sejam as
cânulas, sempre falta algo”.
O
médico Fernando Guanabara explica que a insulina pode ser aplicada de forma
manual, mas que com o aparelho (um dos insumos também em falta na rede pública)
a efetividade da medicação é muito mais precisa e pode ser utilizada para os
dois tipos da doença. “Se falta insumo, pode comprometer esse controle, e isso
pode acarretar alguns problemas para o paciente. O paciente pode ter
comprometimento renal, da circulação, da parte ocular, como glaucoma e
catarata”, explica. Fernando também diz que há maior risco de infartos e de
acidente vascular cerebral (AVC) com a descompensação da substância.
Fonte-Diario do Nordeste