Usuarios On-line





quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Capital tem redução de 63% na taxa de detecção de hanseníase


A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) tem realizado ações educativas nos postos de saúde de Fortaleza sobre a conscientização e o combate da hanseníase. Também tem ocorrido a busca ativa de sintomáticos dermatológicos através das equipes nas unidades. O mês de janeiro é marcado pela campanha de “Janeiro Roxo”, que visa justamente a ampliação do debate sobre o tema. A assessora técnica de hanseníase da SMS, Natália Farias, explica que a doença é uma das mais antigas do mundo e, por muito tempo, pessoas diagnosticadas foram excluídas da sociedade. “A doença tem cura e o tratamento é feito gratuitamente em todos os postos de saúde de Fortaleza”, ressalta.


Foto: Wikimedia Commons/Divulgação

De acordo com dados fornecidos pela secretaria, durante todo o ano de 2022, somente na capital cearense foram feitos 281 diagnósticos de hanseníase. Desses, um caso evoluiu para óbito. Além disso, em Fortaleza, a enfermidade atinge mais homens do que mulheres, eles chegam a representar 55% dos diagnósticos. A SMS, porém, informou que a taxa de detecção da hanseníase, que atualmente é de 10,4 por 100 mil habitantes, vem diminuindo com o passar dos anos e, em uma comparação com 2013, já chegou a uma redução de 63%.

O diretor da Sociedade Cearense de Infectologia, Dr. Guilherme Henn, acredita que a hanseníase é negligenciada. “É uma doença que tanto recebe menos atenção do Poder Público, no sentido de financiamento para o diagnóstico precoce, para o tratamento e para pesquisa, sobretudo, e também há negligência por parte dos profissionais de saúde e dos pacientes”, pontua. “Uma doença como essa, que tem uma importância epidemiológica muito grande, precisa ter uma campanha associada como o ‘Janeiro Roxo’ para que as ações de combate sejam reforçadas”, defende.

O especialista explica ainda que há dois principais obstáculos para que se descubra a enfermidade em estágios iniciais. “O primeiro é a própria apresentação clínica da doença. A hanseníase se caracteriza pelo surgimento de lesões de pele que costumam ser anestésicas, ou seja, não doem e não coçam. Como aquilo não incomoda a pessoa e é uma manchinha quase que imperceptível no começo, muitos não se importam com a presença daquela mancha. Na medida que a doença vai avançando, outras lesões vão surgindo e, mais para a frente, a gente pode ter as complicações”, detalha.

Além disso, o Dr. Henn relata que há profissionais de saúde que, por não serem treinados para o reconhecimento dos sintomas, também não têm condições de dar o devido valor a tais lesões em um momento precoce. É válido ressaltar que a hanseníase é transmitida de forma respiratória por gotículas. “No passado, os pacientes eram confinados. Mas hoje, a gente sabe que não há mais necessidade disso, porque sabemos que, para uma pessoa adoecer de hanseníase, ela precisa ter uma suscetibilidade genética. Então, eu posso estar ao lado de uma pessoa com hanseníase, mas se eu não for suscetível, meu sistema imunológico vai dar conta e eu sequer me infectarei”, explica. Guilherme Henn detalha que aproximadamente 10% das pessoas apresentam alguma suscetibilidade genética e, por isso, não faz sentido isolar os pacientes diagnosticados.

Segundo ele, é importante ressaltar que a hanseníase evolui ao longo de muitos anos. Após a infecção, leva um tempo até a primeira mancha aparecer. Depois do surgimento do primeiro sintoma, em geral, há um período de meses ou anos para que a mancha aumente e se dissemine para outras áreas do corpo. “O grande problema da hanseníase é que, se o paciente não for diagnosticado para ser tratado em uma fase precoce, o bacilo vai acometendo nervos periféricos, que estão associados principalmente à sensibilidade das extremidades, mas também, em alguns casos, à capacidade de movimentar tais extremidades”, conta.

Dessa forma, muitas vezes, as pessoas acabam se machucando em regiões que se encontram anestesiadas pela doença sem perceber. Tais lesões podem acabar evoluindo para necrose e infecções bacterianas, que podem levar a necessidade de amputar um membro ou até mesmo ao óbito em decorrência de complicações. “O Ceará é uma das áreas do mundo que têm maior densidade de pessoas com hanseníase. A doença existe e é importante porque acaba podendo trazer sequelas. A chave para voltar a ter uma vida normal é o diagnóstico precoce. É preciso que, caso qualquer manchinha que apareça, procure-se atendimento. Existem maneiras daquilo ser avaliado por um médico e um enfermeiro treinado”, aconselha o médico.

Por Yasmim Rodrigues